domingo, 27 de julho de 2014

Para onde o amanhã.

Tudo girava. Luzes, cores. 
- Gostaria de me acompanhar?
- Desculpa, estou tirando fotos.
- Fotos do que? 
- De todos!
- Mas, todos estão indo! Venha tirar fotos, tiraremos fotos de todos! Posso te ajudar?
- Ainda não disse que vou...
- Ah, mas vá!
- O que faremos lá?
- O que você deseja fazer?
- Tirar fotos! Não é essa a proposta?
- Então, por que perguntou?
- Por que não respondeu prontamente, então? 
- Porque queria fazer de suas vontades, para que desejasse me acompanhar.
Olhou para baixo, para as batos vermelhas que estavam com as pontas molhadas. Havia chovida. Gostava de tirar fotos na chuva. "Ficavam tão bonitas, refletidas, coloridas, iluminadas!".
 - Haverão poças no caminho?
- Poças de chuva...? Creio que sim.
- Então acho que não irei...
- Está só tentando arranjar desculpas!
- Se percebe, por que meramente não me deixas em paz?
- Porque sou do tipo aferrado. 
- Ouço dizer que gente do tipo não deveria sair de casa.
- E você acredita?
- Sim, por isso preferi parar de ser assim.
- Logo, não insiste mais em nada?
- Creio que não.
- O que faz então? 
- Desisto.
- Mas... isso te traz algo de bom?
- Saio de casa.
- Você acredita em tudo que lhe falam?
- Não!
- Então deixe-me insistir fora de minha morada!
Olhou agora para frente. Olhou direto em seus olhos. Exuberantes. Recitam as más línguas que os olhos claros são mais enigmáticos. "Hei de descordar pois... " Aqueles olhos não eram claros. Eram o adverso de claros.  Pretos, lembravam ao mesmo tempo que um vinho de cor rubra e vibrante, do tipo que inebria qualquer um que o fitar, como também um mar tétrico, no qual nenhum navegante ousaria boiar sobre.
Segurou então uma mecha de seus cabelos. Eles estavam secos pois os havia guardado em seu gorro para que não estragasse as mechas pouco antes pintadas.
- Há lá aonde iremos algum lugar em que posso ficar sem molhar meus cabelos tingidos?
- Sim.
Olhou para sua câmera.
- O caminha é sombrio?
- Um tanto quanto.
- Então, não poderei ir.
- Por que?
- Porque em lugares caliginosos, tenho medo de que roubem minha câmera.
- Nós a embrulhamos, veja.
Com suas mães grandes, segurou a câmera no meio de seu enorme casaco.
- Mas...
- O que há agora?
- Já está a amanhecer... Temo ter de voltar para meu lar.
- Pois olhe, de manhã não haverá o que temer. Com o sol do dia, as poças secarão e não importa se chove ainda ou não, pois tenho um guarda-chuva.
- Para onde iremos, afinal?
- Para d'onde todos estão vindo.