quarta-feira, 29 de agosto de 2012

"São os meus filhos que tomam conta de mim"

 Outro dia, eu estava no clube, com meu pai, meus três irmãos e a Alice (uma amiga da minha irmã).
 Uma das coisas ruins, sobre ir ao clube com meus irmãos é: Eles são muitos. Três. Mas é claro que, quando se trata de ir ao clube em uma tarde de sábado, pelo menos um deles, sempre tem que levar uma companhia. O que aumenta a quantidade de pessoas, e diminui o espaço no carro.
 Nesse dia, minha irmã tinha levado uma amiga. O que na verdade, não fez muita diferença, porque eles sumiram tão rápido do meu campo de visão, que não deu nem tempo de pensar se eu gostava ou não daquela situação.
 Eu fiquei então, sentada em um banco, perto do meu irmão mais novo. Que por acaso, estava bem longe de mim, sentado em uma sala, brincando sozinho, enquanto meu pai tirava uma soneca bem gostosa, ocupando o outro banco inteiro.
 Eu estava lendo.
 Não gostava muito da idéia de estar no clube. Estava meio entediada, na verdade.
 Estava sentada em um parque. Um parque aonde a concentração principal, eram crianças. Crianças em média, de mais ou menos quatro anos.
 Então, um menino pequeno, mais ou menos do tamanho de minhas pernas, chegou correndo perto do banco em que eu estava sentada. Ele só não corria, como também chorava. Com suas mãos cobrindo o rosto. Não era um choro de manha, como quando a criança quer um sorvete, que o pai não quer dar por dizer que está fazendo um dia frio, e que isso pode dar dor de garganta, ou simplesmente, por não querer dar. Era um choro sofrido.
 Quando olhei para o menino, pensei se poderia perguntar ou não o que tinha acontecido. Ele não parecia perigoso. Estava usando uma roupa de homem-aranha, pequena como ele e o que o servia direitinho. Não reparou que eu estava tão perto dele, e tão pouco tirou suas pequenas mãos sujas de areia de cima dos olhos.
 - O que aconteceu com você, homem-aranha?
- Ela não quer brincar comigo.
 Ele respondeu tirando as mãos por alguns segundos do rosto, só para poder enchergar direito a pessoa, até então estranha, que tinha falado com ele.
- Quem não quer brincar com você? Aquela menina de vestido de princesa?
 Disse, apontando para uma menina, também fantasiada, que estava próxima ao banco, só dando olhares com o canto dos olhos.
- Sim.
 Mas, não consegui nem responder nem desenvolver essa conversa. Porque nessa hora, um homem, que deduzi como sendo o pai do menino, chegou, me olhando com aquela cara de desprezo.
 Ele não estava perto na hora em que seu filho entrou chorando em meu campo de visão. Se distraiu por um segundo, esperando que, quando voltasse a olhar, seu filho estivesse brincando com a princesa, que agora, rodava sozinha em volta de um cano alto. Mas, que quando olhou a procura de seu filho, o encontrou conversando com uma estranha.
 Sem olhar direito para mim, pegou o filho no colo, e, ao ouvir a responde de porque ele estava chorando, o colocou no chão e o mandou parar de chorar, falando que se não parasse, iriam embora.
 Pensei no meu pai, que estava naquele momento, ainda em sua soneca.
 O menino tinha pedido para o pai, para não ir embora, mas eu não sei se ele foi ou não. Porque naquele momento, o menino que estava a tão pouco do meu lado, não estava mais nem no meu campo  de visão.

                                                  (Tema: olhar para fora)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

"Todo dia,o sol da manhã vem me desafiar"

Todos os dias, ou quase todos os dias, eu passo por ele. Ele é uma pessoa na qual as pessoas reparam. Para começar, ele é manco. E fica andando de um lado para o outro, na praça, com sua perna manca, só para se assegurar de que está tudo bem. Em segundo lugar, ele fala bom dia/tarde para todos que passam. Às vezes, as pessoas não escutam, ou não dão bola até. Podem estar falando no telefone, ou conversando com uma amiga. Talvez, fazendo sua caminhada diária, apressada para o horário de almoço. 
No fim, ele passa todos os dias, andando, ou, às vezes por milagre, sentado em seu banquinho, só acompanhando o andar das pombas, ou simplesmente sentindo o calor do sol, e a brisa gostosa que bate nos lugares mais obscuros e escondidos de seu corpo.
Eu passo, todos os dias, ou quase todos os dias, por ele. Enquanto meu olhar acompanha as folhas que voam ao caírem das árvores. Ou as pombas que ciscam no chão e assustam pessoas. Mas, eu gosto de reparar nas pessoas, e ele, com certeza é uma pessoa que eu reparo muito. 
Usa sempre, uma calça jeans. Sua blusa mesmo em dias quentes, vem acompanhada por cima por um casaco, ou até mesmo um blazer mais chique. Ele é mulato.
Normalmente quando passo, o sol está no ponto mais alto do céu daquele dia. O sol tá de arder cada dedinho do pé, soterrado sob sua meia e seus tênis. E ele está lá, por mais que de blusa. Por mais que soando. Por mais que querendo ir pra casa, está trabalhando. 
O sol bate em sua careca, e a faz brilhar. Enquanto o vento faz meus cabelos irem e virem acompanhando-o.
- Boa tarde jovem. - fala quando me vê. Pode estar ocupado, conversando com uma pessoa, sobre o carro que ficou de olhar, ou sobre o dia lindo que faz. Sempre me dá boa tarde. E não faz isso de mal humor,nem na obrigação. 
E todos os dias ele está lá. O cara, manco, sempre com a careca brilhante, de tanta simpatia.

                                         (Tema: olhar pra fora)